segunda-feira, 22 de abril de 2013

Entrevista 8 - Joaquim Miranda - parte I - Greve na Cobrasma de 1968 e ABC paulista

Elaboração, coleta e transcrição da entrevista: Alessandro de Moura.
[Falta revisão]



Nasceu em Porangaba, em 1941. Quilometro 165 da Castelo branco, perto de Botucatu. Migrou para são Paulo em 1958, aos 16 anos, ingressou na Granada, onde trabalho durante 4 anos. Relata que nessa fábrica já havia um trabalho de organização operária desenvolvido pelo Partido Operário Comunista – POC (Organização que tinha Luiz Eduardo da Rocha Merlino como um de seus dirigentes – este foi assassinado pela ditadura). Em 1962 ingressou na Brás-eixo, onde se fabricava peças para veículos e caminhões, exercia função de afiador de ferramenta. Relata que começo a sua militância por volta de 1965, por via da Igreja católica, congregação Mariano. Na igreja conheceu membros da JOC, “Na congregação Mariano começou a aparecer uma ou duas pessoas que eram da JOC, Juventude operária Católica, e ai eles começaram a falar dessas coisas diferentes, de trabalhadores, de sindicato, de comunismo, de justiça social, e eu fui me interessando, fui embarcando, foi assim que começou. O Padre daqui também era um tanto progressista, isso ajudava... Padre Rafael Busatto. Foi assim que começou então, começou na Congregação Mariano”. Foi dirigente nacional da ACO – Ação Católica Operária.

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Uma das coisas muito interessantes, que eu acho de 1968, que até merece registro, é que, olha, noventa e nove por cento (99 %) daquele pessoa que estava na linha de frente da greve, eles continuaram em algum lugar, ou em sindicato, ou em uma associação, ou movimento social. Então, isso ai para mim é relevante. Porque muitas vezes, principalmente porque teve muita repressão, o pessoal dsbunda todinho né. Muitas vezes acontece isso. Bom, eu já vi acontecer isso.

Em 1965 eu já entrei para a diretoria do sindicato dos metalúrgicos de Osasco... o processo foi uma chapa única. Tinha havido intervenção no sindicato, depois foi liberado para ter eleição, teve uma chapa única. O interventor era Luiz Camargo... Ele era nomeado pelo Ministério do Trabalho, quer dizer... não representava nada. Na verdade, esse próprio Luiz que era interventor montou a chapa, ele não participou, mas ele montou, quem encabeçava a chapa era o Henos Amorina, que foi presidente do sindicato dos metalúrgicos, foi vereador aqui... Ai eu fui convidado... eu ia no sindicato jogar ping-pong, e eu fui convidado para participar da chapa e entrei... 

O Henos... Dentro da consciência que ele tinha, não da para dizer que era combativo, mas também não dá para dizer, o que alguns dizem, que era um pelego, eu não diria isso de jeito nenhum. Eu via como um amigo... Uma pessoa popular, ligado a área de futebol amador, metalúrgico, eu acho que sem grandes qualidades, vamos dizer, mas também... não via defeitos nele a ponto de comprometer seriamente a classe, a categoria metalúrgica enquanto ele era o presidente do sindicato. 

E nessa época também foi criada aqui em Osasco uma subsede da Frente Nacional do Trabalho... e toda segunda-feira tinha uma reunião para a gente conversar, reunia 10, 12 pessoas, metalúrgicos, não-metalúrgico, e a gente conversava sobre a vida dos trabalhadores. E acho que ali deu para gente se aprofundar... eu ia me aprofundando um pouco mais da questão de entender porque eu estava no sindicato, o que representava o sindicato, a história do sindicato, então deu para se aprofundar um pouco mais. A sub sede aqui... A sede da Frente era em São Paulo... [a sub-sede em Osasco], era na verdade um escritório de advocacia onde tinha o Mario Carvalho de Jesus, que o Albertino deve ter falado... Teve uma greve numa empresa em Perus, e acabou virando um marco essa greve da empresa em Perus... E a Frente Nacional do Trabalho, com alguns militantes, tiveram um papel importante nessa greve. 

O primeiro de maio na Praça da Sé em 1968 

Eu, hoje sei muito mais coisas, sei onde estou pisando e tudo mais. Mas, mesmo no primeiro de maio [de 1968], me deram lá um cartaz, o pessoal daqui da diretoria do sindicato, um cartaz do Che Guevara, e eu estava segurando... Eu não... Sinceramente, diante de todo o perigo que estava ali... Era realmente [arriscado]... Carregar um cartaz do Che Guevara... A organização [do primeiro de maio] era muito mais ligada ao Ibrahin [da VPR]... grupos de esquerda que eu não sei identificar... Eu nunca participei de reunião de organização... Só anunciavam: ‘no dia primeiro de maio nós vamos para a Praça da Sé’. Osasco teve uma presença forte sim... Teve uma presença forte nesse primeiro de maio, tanto na organização como na hora de destruir o palanque lá. De invadir o palanque onde estava o governador. Então teve... eu sei que teve uma presença forte sim...

Por que que se decidiu tomar o palanque e expulsar o governador?

Fazia parte do esquema do pessoal, principalmente da luta armada que preparou... Parece que o Lamarca nesse dia estava lá comandando um pessoal, uma quantidade... O capitão Lamarca né... Parece que ele era o comandante da segurança da Praça da Sé. E isso já devia estar combinado entre as pessoas [que dirigiram a organização do ato]. Mas eu não tinha conhecimento nenhum disso, não tinha não...

Mas, foi legal, tinha muita gente... Era época da ditadura, fazer um primeiro de maio daquele... Expulsar o governador não significava muita coisa... Porque o governador... mesmo no DOI-CODI [Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna], eu cheguei a ver... daqueles que estavam no DOI-CODI... bem... bastante tempo depois... fazendo chacota do Abreu Sodré... Então, era uma marionete [o Abreu Sodré], simbólica só... o governador né... Quem mandava mesmo era os militares né... Ai foi o primeiro de maio, depois a greve [da Cobrasma] foi em julho... Um mês e meio depois... 

E como se preparou essa greve? 

Antes um pouquinho... Voltando um pouco... Eu vim do interior... Tinha uma musica lá do Raul Seixas, quando eu vim do interior “Inocente, puro e besta” [O título da música é Sessão das 10], então foi mais ou menos assim que eu vim, inocente, puro e besta, e ai veio a “Disparada”, do Geral Vandré, aquela música disparada, para mim ela é muito interessante e tem um conteúdo muito bom. Como se fosse a caminhada de alguém que vira militante, digamos... não importa de que... pode ser até de direita... de esquerda... eu prefiro a esquerda... ‘E o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo’, eu acho que muita gente ouve essa música, mas não entende porra nenhuma... Eu entendo de uma maneira, de uma caminhada de um militante... Então para mim, eu faço questão de registrar isso... A “Disparada” influenciou bastante na minha vida... 

A greve foi um movimento grande, grande, e um desafio a ditadura. Hoje eu percebo isso, antes também não... Um desafio a ditadura... Um dos maiores desafios que teve... Principalmente uma maneira de fizer, uma parte das pessoas, de trabalhadores, dizerem... Tinha estudante... bastante estudantes também, da USP participando... Anteriormente, conversando com um e outro... da USP eu sei que tinha... Para apoiar, e também para tentar cooptar para o partido aos quais eles pertenciam, AP [Ação Popular], POC e outros, menos o PC...

O PC, na empresa em que eu trabalhava, a Brás-eixo, no dia da greve, um dos lideres históricos... do PC aqui em Osasco, o [Conrado Del] Papa... que tinha sido inclusive do Sindicato dos Metalúrgicos... Nesse dia, dentro da Brás-eixo, eu me lembro, apesar do alvoroço, eu me lembro... Ele era gordão... Ele saiu assim... Só olhando para o chão e [saiu de fininho]... Ele tomou uma atitude que ele achou que devia tomar... Deve ter dito lá, para o chefe dele no dia ‘Olha, eu não tenho nada com isso’, mais ou menos assim... Eu penso que foi isso. A motivação dele né... Ta morto também... Falar de morto né... Falar mal é um pouco de covardia, mas já que é história, não dá para a gente se omitir também, não é? 

Então a greve teve uma preparação, principalmente foi organizada pela comissão de fábrica [da Cobrasma]. Eu era da Brá-eixos, e a Comissão era da Cobrasma. Nessa época, um pouco, uns seis meses antes da greve, a gente estava começando a organizar uma comissão de fábrica na Brás-eixo... E ai, a greve, na empresa que eu trabalhava, na Brás-eixo, não tinha plano nenhum de greve, apesar de estar ali encostado. Mas acontece que no dia 16 de junho começou a greve na Cobrasma, e em outras empresas, eu trabalhava em uma máquina de afiar ferramenta, e durante o dia, logo de manhã, vinha um na minha máquina, estava lá, na sala onde eu trabalhava, e falava assim: ‘E nós?’. Eu falava assim, porque eu era do sindicato, então era como se fosse uma referência, uma orientação, uma cobrança, ai eu dizia: ‘Nós nada, a greve é da Cobrasma’. Para você ver o nível que a gente estava... E também, o pessoal da Cobrasma, ao bem da verdade, da comissão de fábrica, eles eram meio que, como se fosse.... Os donos da verdade, ou, os iluminados... os muito poderosos que não precisavam da Brás-eixo... Não, teve Brown Boveri, teve Lona-flex, mas eu, enquanto dirigente sindical nunca fui consultado para dizer ‘Na Brás-eixo, dá para acontecer alguma coisa?’. 

Na Lona-flex e na Brown Boveri tinha uma certa organização, mas na Brás-eixo, eu posso garantir, tinha mais de 800 trabalhadores, uma das empresas super importantes, ali do ladinho, não tinha nenhuma preparação para a greve... Ai começou, vai um e diz: ‘E nós?’, e um segundo: ‘E nós?’. E um terceiro... Quando chegou lá pelo décimo, eu falei, está acontecendo alguma coisa!’. Ai eu comecei a dizer: ‘Então vamos para o sindicato hoje a noite as 19:00’. A gente saia as cinco e pouco, seis horas do serviço, ‘vamos para o sindicato e vamos decidir’. 

E não é que assim, com tudo meio nas coxas, apareceu umas setenta e poucas pessoas no sindicato. Quer dizer, dez por cento (10%) dos trabalhadores, e lá nos decidimos. No outro dia, no dia 17 [de junho] nós decidimos: ‘Vamos parar também, e vamos ocupar a fábrica também’. A ferramentaria, disso eu sabia, a ferramentaria e a afiação de ferramenta, onde eu trabalhava, a gente reunia ali umas cem pessoas, eram os mais mobilizados, era um pessoal, digamos, mais consciente... Então o esquema era assim: ‘Vamos para a ferramentaria e a afiação de ferramenta’, e dentro da firma, tinha aquelas ruas, onde passa os carrinhos para conduzir peças... E a gente pára e começa uma passeata dentro da fábrica, pedindo para o pessoal aderir, da linha de produção, da usinagem, de todo o canto, pedindo para o pessoal aderir. E ai fomos por essas ruas, fazendo as passeatas dentro da fábrica. Ali pela terceira passeata, noventa por cento já tinha engrossado a passeata dentro da fábrica. E a diretoria, os cabeça, a diretoria da fábrica, junto com a gente, porque nesse dia eles entraram mais cedo... acho que eles ficaram sabendo... E ai eles diziam para mim: ‘O que é? Vamos conversar, vamos conversar...’. E eu lembro que eu dizia: ‘Hoje não tem conversa’. Porque era uma greve unicamente, na Brás-eixo, de solidariedade à Cobrasma, principalmente porque na noite anterior tinha havido toda aquela violência da cavalaria entrar na Cobrasma né... Então o pessoal fica sabendo... de um jeito ou de outro, e tem um sentimento de classe sim, que funciona nessa hora... Tanto é que quando uma pessoa dizia: ‘E nós, e nós? Via a Cobrasma parada do outro lado. É um sentimento de classe, eu entendo assim, de solidariedade. Ainda que na Cobrasma, os problemas da Cobrasma, tanto de insalubridade, de salário, de higiene, tudo mais, era muitíssimo pior do que na Brás eixo. A Brás eixo era um empresa moderna, um bom salário, condições de trabalho boa, restaurante bom... Então, uma motivação, assim, especifica para colocar como bandeira para o pessoal parar, não tinha não. Agora, a Cobrasma tinha de sobra... Motivação dos mais diversos setores... Necessidade de uma reação contra... insalubridade por exemplo, que eu saiba, na Cobrasma tinha muito, muito, muito... Então foi assim, e ai paramos no dia 17, parou, no dia 17 parou, só ficou o escritório trabalhando, o restante parou tudo...

E a repressão, como foi? O que aconteceu?

Ali por perto da Cobrasma, em frente o sindicato em Presidente Altino, era mesmo uma praça de guerra. Aqueles carros chamados ‘burucutus’, ‘Tatus’, que eu não ouço mais falar deles, estavam todos nas ruas ai... Polícia... Nessa altura, uns 50 trabalhadores da Cobrasma já tinham sido presos... E no dia 18, foi bem, mais uns 50 presos... Repressão teve, a cavalaria entrou dentro da Cobrasma, gente pulando o muro de noite... Eu não estava lá dentro, mas ouvi falar... Então a repressão foi fortíssima. Até porque uma greve de ocupação que nem foi aqui na Cobrasma... Ditadura... ocupar uma fábrica, segurar engenheiro lá dentro, para ir almoçar no bandejão, no mesmo prato... é meio atípico... Para uma época de Ditadura...

E na fábrica onde o senhor trabalhava, foi gente presa também? O senhor não chegou a ser preso nessa ocasião?

Fui. Fui.
E como foi isso?
Olha, nessa altura, o sindicato já havia sido invadido. E o ponto de encontro nosso... Porque se você vai fazer uma greve, você tem que ter um ponto de encontro, para se reunir, para planejar o dia seguinte. Mas que falou que dava... Me diz, o sindicato foi invadido, toda aquela perseguição... O nosso ponto de encontro era a Igreja Santo Antonio, que hoje é a Catedral. Então já estava combinado... no dia 17... Amanha, dia 18 a tal hora a gente vai se reunir na Igreja Catedral, vamos lá, porque lá a policia não entra, na minha cabeça... Eu tinha certeza absoluta disso... Ai no dia 18, quando eu cheguei lá, as sete horas da manhã para reunir com o pessoal lá na Catedral, já estava cheio de policia lá dentro... E na medida que eu entrei, já tinha uma salinha lá... uma salinha na saída da Igreja, já tinha uns 50 ali presos... Eu entrei na salinha, o policial com o Fuzil em direção aos caras... Quer dizer, ninguém me prendeu, eu fiquei preso por si só, sozinho...
E ai quando eu via aqueles policiais, com os fuzis dentro do Seminário, porque era um seminário ali, agora não é mais... Ai eu fale ‘O mundo está acabando!’. Porque eu estava pensando... E tinha uma idéia, tinha não, acho que eu tenho ainda... que com a Igreja ninguém mexia... Com a Igreja ninguém mexia, porque aquele era um lugar sagrado e entrar ali seria um pecado terrível. E ai que eu volto na “Disparada” [do Geraldo Vandré] e ‘as visões se clareando, até que um dia eu acordei’. Então nesse dia eu acordei, quando eu vi a policia dentro da Igreja. Acordei no sentido de que a luta de classe, principalmente porque era uma coisa muito sem entender... Para mim, comecei a entender que tem luta de classe, e que o capital é quem manda. Que a policia está a serviço do capital, das empresas, da Ditadura, e que eu era uma coisa a parte. Eu, os trabalhadores, eramos uma coisa a parte, que não tinha que se misturar. Então, ‘as visões foram se clareando’ a partir dos fatos.
Eles prenderam o senhor nessa sala, e depois?
Dali nós fomos para, trouxeram um ônibus, nos fomos para a delegacia de Osasco... Na delegacia de Osasco, acho que tinha lá, depois eu fiquei sabendo... Já tinha um oficial do exército que era agente da repressão... Já foi fazendo uma triagem para ver que ia para o DOPS, antigo DOPS. E ai, acho que desses 50, pelo menos uns 30 foi para o DOPS. Fomos para o DOPS. Fui para o DOPS.
O senhor ficou com medo?

Olha, um pouco.
Medo de desaparecer, porque se ia para o DOPS, nem todo mundo voltava...

Eu não sabia que desaparecia. Ainda não. Eu sabia que não era bom, mas que desaparecia não.

Curioso que nesse dia tinha nascido minha primeira filha... E na Delegacia de Osasco, dentro da Brás-eixo, trabalhava do meu lado um padre francês, chamado Pierre  Wauthier, isso ai vale registrar também, eles eram padre trabalhadores nas fábricas das comunidades aqui da Vila Yolanda... Ele estava na delegacia de Osasco preso também... Ai ele disse: ‘Sua filia deve se chamar Liberdade’, ela havia nascido no dia anterior, e eu não tinha nem visto ainda... acabou ficando Denise Liberdade...

Dali fomos para o DOPS, no meu caso, eu fiquei três dias... Outros ficaram mais, outros ficaram menos... É curioso notar também, que na sela, com as 8 pessoas, tinha três padres, que vieram em apoio. Não, o Pierre era trabalhador mesmo, os outros vieram do interior de São Paulo, os outros dois, em apoio a nós aqui em Osasco... Um era o Soares, só lembro do primeiro nome... O outro era... um que depois... também não lembro o nome dele agora... depois ele criou um centro de saúde... Sei que um era lá do lado de Lins, e outro era de Bauru.

E nessa ocasião, o senhor foi torturado?
Fui ameaçado, mas de alguém me bater não. Três dias, teve interrogatório, um tempo durante os três dias, interrogatório, aquelas ameaças, e tudo mais... Mas dizer que alguém, fisicamente... Porque a tortura, ela tem uma definição um pouco mais ampla. Porque na medida em que você é fechado na gaiola ali, dormindo na beliche junto com outro...
Depois teve um processo... em cima de quarenta pessoas (40), que a gente respondeu na Auditoria de Guerra, por conta da greve, Lei de Segurança Nacional. Então teve um processo, ninguém foi condenado. No meu caso, eu fui colocado como absolvido. Depois eu tive outro processo também, mas nessa luta eu fui considerado perdoado, mas isso porque... ai já era um desdobramento, não tinha mais haver com a greve, não necessariamente.

O senhor foi preso primeiro em 1968, e quando novamente?

Depois em 1971, duas vezes.

E teve muitas demissões depois dessa greve de 1968?

Do sindicato foram todos. Todos demitidos. E sem direitos. Eu tinha oito (8) anos de empresa... Ganhava bem. No dia, o engenheiro chefe do meu setor de ferramentaria, de afição de ferramenta, o engenheiro... Carlos Martins... engenheiro... Ele chegou em mim e disse: “O Joaquim Miranda, tem uma proposta para fazer para você...”.
Eu falei: ‘Legal, oquê que é?’.
“Você vai para os EUA, fica três meses, tem uma ajuda de custo... E quando você voltar vai ser chefe de um setor”.
‘Boa proposta, legal’. Mas ai ele disse em seguida:
‘Só que tem uma condição, você tem que largar o sindicato’. Ai eu falei:
“Me dá três dias para pensar”.
Depois de três dias, eu conversei com a minha mulher, acho que pensei bastante. Depois de três dias, isso antes da greve [de 1968], ele veio lá para mim e falou:
‘Decidiu?’ Eu falei:
‘Decidi!’. ‘O que?’
‘Vou ficar com o sindicato’.

E ai que o senhor foi demitido depois da greve da Cobrasma/Bras-eixo, o senhor foi trabalhar onde?
Depois, como tinha na época, organizado pela repressão, uma lista negra que funcionava muito bem. Com a participação que tive ali, fiquei marcado mesmo. Ai pensei, ‘eu vou para o ABC, trabalhar no ABC’. Quando eu ia para Santos, de vez enquando, passava do lado da Volkswagen ali na Anchieta, olhava aquela firma com aqueles tijolos aparentes, do lado de fora... Falei: ‘Que lugar bonito! Um dia ainda vou trabalhar aqui na Volkswagen!’. Mas eu acabei indo trabalhar na Ford Willis, que antes era só Willis, depois a Ford comprou e ficou Ford-Willis. Então, uns três meses depois da greve [da Cobrasma/Brás-eixo], no caso já no fim do ano, eu consegui entrar na Ford Willis, no final de 1968, lá no ABC. Então fui lá, de lá, eu já tinha feito teste na Volks, que era o meu sonho trabalhar no Volks. A Volks me chamou, pagava mais. E eu fui para a Volks... Fiquei na Volks seis meses. Depois descobriram na Volks que a gente era subversivo, e depois de seis meses mandaram embora.

O senhor estava ligado a alguma corrente política?
Eu tinha muitos contatos nessa época já... Com a AP... Morei com gente da AP, tinha o pessoal do POC... de outras tendências... Lia os materiais deles... Era cansativo, mas eu lia...Era um que a revolução ia se dar pelo campo, outro falava que era pela cidade... Outro falava que era cidade e campo... Um da linha Maoista, outro da linha leninista. Eu lia, era cansativo mais eu lia. Eu achava meio baboseira, um pouco... todas aquelas teses, mas eu lia sim...

Então o senhor acabou na entrando em nenhuma corrente?
Tive uma aproximação muito forte, no processo que teve contra mim, foi dito que eu estava ligado ao POC – Partido Operário Comunista. Mas eu não me sentia, sentia muito próximo, muito amigo.

Tinha quantos militantes do POC em Osasco?
A gente tinha nome de guerra. E nem tinha uma lista... Mas que eu saiba, no dia de hoje, tipo uns quatro (4). Era clandestino tinha nome de guerra e ninguém ia chegar para você e dizer assim ‘Olha eu sou do POC’.

Interessante notar também que na Volks a gente começou, lá... na Volks, porque passado a gente já tinha.. Acabava a gente fazendo uma corrente com outras pessoas.. Eu acabei me entendendo lá com um que foi até meu compadre, da AP. Ai um dia nós dissemos, ‘Vamos fazer um jornal aqui?’. Uma folha de sulfite, mimeografo a álcool... A minha mulher, com um mimeografo a álcool, ela que fazia a redação e impressão, e a gente fazia o conteúdo...
Dentro da Volks tinha quase que um quartel...

No ABC, a gente, quando foi para lá, era uma idéia mais ou menos fixa, de que as comissões de fábrica seriam a melhor forma de atuação... Lá no ABC a gente chegou... Era uma palavra de ordem que ninguém contestava né... Lá no ABC quando a gente foi para lá, eu e outros que já existiam por lá, começamos aos domingos a gente se reunia pelas quebradas, um daqui outro dali, dez, doze pessoas. Na casa de um, de outro, meio escondido para tentar organizar as comissões de fábrica lá.
E havia, quando teve a greve que o Lula assumiu a liderança lá, pequenos núcleos de comissões de fábrica. Não reconhecidos pela empresa como era o caso da Cobrasma, porque aqui [Na Cobrasma], era uma comissão reconhecida, aberta. Lá [no ABC] eram comissões clandestinas. Então quando teve as greves [1978, 1979 e 1980] já existiam pequenas chamas de organização operária dentro das empresas: Mercedez, Ford, Volks, Scania. Era uma palavra de ordem né...

E o senhor foi preso duas vezes em 1971, por que?
Em 1971 duas vezes. Porque eu estava... Nessa época eu estava trabalhando na Mercedez... Depois da Volks, eu fiquei um tempão desempregado, uns seis meses. Minha coisa era a indústria automobilística. Entrei na Mercedez depois de muitas tentativas, afiador de ferramenta. Um dia, quatro e meia da tarde, chegou um cara com uma capa, na máquina que eu trabalhava na seção... quatro e meia era o horário que eu entrava para trabalhar, chegou um cara lá, com a capa, apontador de produção: ‘É para você ir na seção pessoal assinar um documento’. Eu falei: ‘É fria!’. Meu faro estava até bom, ‘É fria!’, fria quer dizer ‘é repressão’. Era o DOI-COD que estava lá me esperando. Porque eu encontrei uma vez, lá perto da Mercedez, um sujeito da Ala vermelha, o grupo ala Vermelha, que tinha sido preso, muito torturado e ele falou de mim. Ele não sabia meu nome, mas acho que por foto alguma coisa, e deduziram que eu, ou o ‘Zé Maria’, que era meu nome de guerra, trabalhava na Mercedez. E lá eles me acharam, me levaram, troquei o macacão... e me levaram para o DOI-CODI, naquelas peruas veraneio, cheio de metralhadoras, com quatro pessoas. O DOI-CODI era um inferno. Porque ali a pessoa passava coisas que, muitas vezes a morte imediata seria melhor do que o sofrimento lá dentro.
Ai primeiro foi o interrogatório, tipo as oito horas da noite, estava em uma salinha, querendo saber disso, daquilo, daquilo outro. ‘Conhece fulano?, conheci fulano?’. ‘Não, não conheço’. Eu segurando, segurando. Ai nesse dia ficou nisso. No outro dia, pau-de-arara, choque elétrico... E eles queriam que eu falasse, tinha um rapaz, que tinha o nome de guerra de Gustavo, esse era o centro do interrogatório, eles queriam outras coisas, mas esse era o centro. Gustavo. Porque a função da repressão era justamente desmantelar, se a pessoa era comunista era até secundário, o que eles queriam era desmantelar os grupos organizados que ainda existia, porque nessa época [1971] já estava tudo sendo esfacelado pela repressão.

Gustavo. Esse Gustavo, nada mais nada menos, era um sujeito do POC, isso eu sabia. Ele virou ministro dos direitos humanos no governo Lula. Hoje, se eu não me engano, ele comanda esse Instituto que tem aqui no Perdizes, o Lula está sempre lá.. Gustavo, é
Nilmar Miranda é o nome dele. Esse sujeito é legal, ele prestou ainda um grande... Sobre anistia, comissão de anistia... ele escreveu livros, tem dossiê de quem morreu, porque morreu, onde morreu, ele que organizou tudo isso ai, ele com mais gente, mas ele encabeçou.

 E teve a tortura psicológica que é feroz, eu ainda passo muito mal na maioria dos dias... hoje até que eu estou legal. Porque eu peguei uma depressão do cacete, já passei por um monte de médicos, de remédio... e não digo que seja cem por cento oriundo disso, mas, uma parte é. Eu tinha uma propensão para isso e aquilo ali desencadeou. Por causa [da tortura], porque o sofrimento, que é assim, está em um lugar, você dorme lá em um colchonete, em uma cela... Mas você sabe que a meia noite, as duas horas da manhã ou cinco horas da manhã, qualquer hora alguém chega lá: ‘Zé Maria!’. O carcereiro chama, para interrogar, e com isso, você sabe que vai para um interrogatório e quando você sabe que para o interrogatório, sabe que ali o bicho pega.
E porque a qualquer hora da noite? Porque o DOI-CODI tinha diversas equipes, três ou quatro equipes com quinze pessoas cada uma. Tinha de interrogatório, tinha de busca, equipe de analise de documento, médico, psicólogo, eu cheguei a conhecer um, enfermeiro. Quando eu estava no pau-de-arara, uma vez, pendurado assim, um dos torturadores perguntou para um japonesinho que estava como enfermeiro, com um auscultador de coração - estetoscópio, aquele aparelhinho de auscultar o coração. Ele pediu para o cara auscultar meu coração, ai o japonês falou: ‘Vai mais devagar’. Quer dizer, estava meio que no limite o coração. Então, tinha o psicólogo, eles falava: ‘desenha uma árvore ai’. E a partir disso eles tentavam deduzir, achar o ponto fraco... quando você quer vencer uma luta, hoje eu sei, se você é meu inimigo, eu tenho que, de preferência, achar seu o ponto fraco, porque o ponto  fraco é seu relacionamento com sua namorada, com seu pai, com sua mãe... Se é com sua mãe... Tinha que catar sua mãe, e fazer alguma coisa com a sua mãe. Achar o ponto fraco de cada um, e cada um tem o seu. E eles tinham técnicas para isso. E ai pegava pelo ponto fraco.

Bom, eu falei de pessoas que já estavam no exterior... Por que ali, de cada pessoa que cai ali, dá para dizer que... de quinhentos pode ter um ou dois que resiste, o resto não resiste... depois de um tempo. Ninguém foi preso por causa de mim. Ninguém! E eu conhecia bem uns quarenta... Também é uma coisa que eu me orgulho, mas depois tem as conseqüências. Numa guerra, a gente pode dizer que estávamos em uma guerra nessa época, e numa guerra ninguém trás doce de coco... É como se tivesse racionalizando e dizendo “Isso faz parte”. Para racionalizar é fácil, mas sentir... ai é outra estória.
E tinha uma coisa interessante que passava pela minha cabeça também que é legal, até meio folclórico, quando eu morava no interior, uma pessoa super tímida, e o nosso ponto de encontro, dos mais velhos, era tomar uma cachaça na venda, jogar um baralhinho, os mais novos jogar bola. Uma vez inventaram lá, em um domingo a tarde, de fazer um pequeno rodeio lá perto da venda, onde eu nasci lá, bairro dos Mirandas. Um pequeno rodeio, ai foi lá, molecada, menino, mocinha, na mangueira tinha uns bezerros de um homem, ele cedeu os bezerros para quem quisesse montar nos bezerros. Os bezerros todos na mangueira ali, e quem falou que tinha alguém para montar nos bezerros, ninguém... Na saída era aquele entusiasmo, mas depois na hora de montar, ninguém, tomo mundo assim... E não é que me deu a loca de montar no bezerro... Eu era uma pessoa tímida, fui montar no bezerro, montei... Ele deu umas três voltas na mangueira saltando, pulando e eu não cai. Disso eu conclui que ser preso, depois quando eu já estava mais nessa vida, ser preso era a mesma coisa de montar em um bezerro. Depois fiquei com uma coragem do cão! Eu pensei, ah, ser preso é a mesma coisa de montar em um bezerro. No primeiro você vai ter medo, mas depois, na segunda vez você não tem mais medo. Mas não é nada disso! É o inverso. É uma relação inversa. Ser preso, você vai uma vez nessa circunstância, você pode não estar com muito medo. Mas depois que você vai na segunda você fica com muito mais medo. É a relação inversa do bezerro com essa questão do DOI-COD.
Ai, depois de uns dez dias me soltaram. [Tortura todos os dias?] Todo o dia eu não digo, mas aquela tortura psicológica, de escutar grito de gente. Foi batida na sola dos pés, pau-de-arara e choque elétrico.

E você voltou a trabalhar na Mercedez depois dessa prisão?
Não. Fui demitido. Ai eu entrei na caixa, falei ‘agora não arrumo emprego de jeito nenhum’. A caixa seria um seguro do INSS, um seguro doença. Consegui entrar com o seguro doença. O médico da Mercedez me deu um laudo, quando ele soube que eu fui preso, ele, humanamente, quando eu fui pedir o laudo de doença, ele me deu o laudo. Eu não estava doente. Ai fiquei na caixa, acho que uns três meses, lá em São Bernardo. Um dia estava lá para ver um documento no INSS, cheguei no balcão, me apresentei e disse que queria saber disso, disso e disso. A moça pegou aquilo ali e foi lá para dentro de uma sala e não voltava mais, demorou uma meia hora e não voltava mais, falei ‘É fria! A repressão sabe que eu estou na caixa, até porque o médico da Mercedez deu o laudo, e estão me procurando de novo’. Nessa época eu estava escondido na Barra do Piraiba, vim de lá para cá para ver isso. Eu, minha mulher e três crianças pequenas. Ai a moça não voltava, eu pense: ‘Tem coisa ai!’. A repressão sabe que eu estou aqui, estão esperando eles chegarem para me pegar aqui. Quando sai na Marechal Deodoro, na porta os caras me cataram, não deu outra, o DOI-CODI. Ai é porque outras pessoas caem, falam da gente, cai quer dizer, é preso. Essa terceira vez também foi feroz, terceira contando com a do DOPS. Dois meses depois da ultima prisão. Ai foi feroz, aquela coisa de sempre, eles queriam saber de outras pessoas, que hoje eu nem me lembro. Com agravante que eu estava escondido na casa de uns amigos do POC lá em Barra do Piraiba, e ai? Numa dessas? Onde você está? Se dissesse eles iam levar os cara para lá e desencadeava... Nossa... Inferno.
Para não ficar tudo luto, ou tudo feio, um dia eu estava lá, essa Barra do Piraiba era uma fazenda, e tinha um hospital psiquiátrico lá. Esse amigo meu levou para lá, ele tinha contato com a dona da fazenda, arrumou uma casa lá, deicharam comida, tudo para mim, foi eu e minha mulher. Pegamos o trem aqui na Estação da Luz e foi para lá. Tinha uma senha, a pessoa que ia te receber a gente, as três horas da manha lá na Barra do Piraiba na estação tinha uma senha. Falava a senha para a pessoa poder dizer ‘então vamos lá’. Mas o que eu ia dizer era outra coisa: Estava lá num domingo de manhã, tinha uma espécie de um lago, andando atôa, depois que eu já estava, digamos, hospedado. Andando atôa, dali a pouco veio um cara bem vestido, um jovem ainda, começo a conversar, uma conversa bem legal, no fim ele falou assim para mim; ‘Sabe que eu sou?’ Falei: ‘Não.’. ‘Sou Dom Pedro Segundo”. Ai que eu me toquei, ‘aqui é hospital de doido’. E outra, nesse mesmo dia, nessa mesma hora, no campo de futebol, desses não-oficial, uma quinze pessoas jogando bola, com a bola lá. De repente todo mundo ia para o mesmo lado, chutando para o mesmo lado. Falei: que futebol do caraio...
Na terceira prisão o senhor ficou quantos dias no DOI-CODI?
Dez dias novamente. Ai, digamos, eu fui beneficiado novamente por esse padre Rafael. Isso não acontecia. Ele conhecia o coronel Ipiranga, através da Igreja. A essa altura esse tal coronel era chefe da repressão. Acho que estava no Rio de Janeiro. Ai minha família veio falar com o padre Rafael. Normalmente eles não atendia, mesmo filho de milico, de alta patente, não tinha perdão não. Ai vieram falar, depois de uns cinco dias que eu estava lá a tortura parou, o interrogatório parou, ai eu falei: ‘opa, o que houve?’, pensei comigo. Ai depois que eu sai eu fiz uma ligação... depois que vieram aqui o homem deve ter telefonado para o coronel, o coronel deve ter mandado alguma coisa, não sei se ordem, não chego a dizer, ‘baixa a bola ai’. Depois de dez dias eu fui solto novamente, ai um processo na auditoria militar. Ai eu estava incluído como militante do POC, eu e mais sessenta e cinco pessoas na auditoria militar na brigadeiro. No dia do julgamento tinha uns que estavam presos e outros que estavam respondendo em liberdade. Dois fatos curiosos desse dia do julgamento: o juiz auditor, porque lá era tudo major, tenente, o juiz auditor era civil mas da mesma panela. Eu fui na salinha do café, não é que o juiz auditor veio e falou para mim: ‘oh Zé Maria, seu filho da puta, você foi absolvido’, isso na saída, quando eles decidiram a sentença de cada um na salinha escondida deles lá, ele disse: ‘você foi absolvido, mas se você voltar aqui, ai não tem perdão, eles te matam mesmo’. Ai eu voltei para a sala onde estava todo o povo esperando a sentença, todo aquele clima, falei: ‘eu fui absolvido’, ‘Como? Como é que você sabe?’...

Nessa época eu estava trabalhando em São José dos Campos em uma escola, através de conhecidos de esquerda entrei em uma escola técnica lá. Eu estava ativo dentro da escola, conversando, fizemos até uma greve lá na escola e deu resultado. Instrutor de aluno, eu era instrutor de aluno de mecânica, nós achamos que o salário estava pouco e vamos parar, paramos umas duas horas ai veio o aumento.
Desse julgamento, como eu falei, teve dois casos interessantes, o advogado defensor desse pessoal do POC, da maioria deles, ou quase noventa por cento, era o José Carlos Dias, que foi Ministro da Justiça no governo Fernando Henrique. Ele ia lendo os nomes, um por um e dizendo... fulano, fulano, cicrano, não pode ou não deve ser condenado porque assim, assim, aquela defesa, fazendo a defesa. Ai chegou, o José Carlos Dias lá, agora tem o Luiz Eduardo Merlino... “Ele não está aqui’, o José Carlos Dias dizendo para o juiz, ele não está aqui, não porque perdeu o trem, ou taxi, ou avião ou navio, não está aqui porque vocês mataram... Até deu um calafrio, e dá até agora. Olha que coisa.

O Merlino estava militando em São Paulo?
Estava. A gente se encontrava lá no ABC, no Rudi Ramos. E ele foi para a França para fazer contato com a linha trotskista, era da linha trotskista o POC, ai acho que foi fazer contato político. Quando voltou cataram ele. Eu participei de reunião com ele lá no Rudi Ramos, ele com quarenta graus de febre, isso eu vi...

Ai nesse processo eu fui absolvido. Absolvido não, perdoado. Depois disso a repressão já foi chegando... ao final da ditadura... Não teve mais nada...

E o senhor foi trabalhar aonde depois disso?
Da escola, de São José dos Campos, a minha mulher morava aqui [em Osasco] eu vinha só de fim de semana. E eu já entrei em depressão quando estava na escola, fudida, passei mal um dia, desmaiei lá na rua... Estava mal, mal, fiquei seis meses na caixa novamente. Ai vim embora para cá [Osasco], ai entrei na Ferbate. Fiquei 89 dias na Ferbate. Tinha um alemão doido lá que gritava com todo mundo, mas gritava mesmo... A fábrica tinha umas duzentas, trezentas pessoas. Injetoras de plástico. O alemão devia ser daqueles neurótico da guerra lá do Hitler, gritava... e eu trabalhava como uma espécie de Office-boy dele, na mesma sala, que desgraça.Um dia ele gritou comigo, ele estava sentado ai, eu fiquei de pé assim e falei: “você não grita mais comigo não!”. Nunca mais ele gritou, no outro dia ele me mandou embora.
Dali, o ultimo até hoje, acho que é o fim da linha. Fiquei desempregado, passando na Autonomistas, em frente a Liquigás lá, precisa-se de mecânico de manutenção, falei: ‘Vamos lá!’. Isso em 1974.
A Liquigás dava dinheiro para a Ditadura?
Da Liquigás não. Da Ultragaz dava. Tinha um diretor da Ultragaz, Boilesen é um holandês se não me engano. Ele era diretor da Ultragaz, ele ia no DOI-CODI para assistir as seções de tortura, diziam que ele babava [durante as seções de tortura], tem até um filme, Cidadão Boilesen, não assisti, não sei como é. E a Ultragaz dava dinheiro, caminhões... E esse Boilesen, um dia, não sei qual grupo, não sei se a ALN, qual, que fez dele uma penerinha, por perto do parque Trianon na Paulista, fuzilaram. [os grupos foram ALN e MRT]. A Ultragaz, a White Martins dava dinheiro. Diversas empresas.

O senhor se lembra das greves do ABC?
Lembro.  Eu fui em uma das manifestações do Vila Euclides. Em uma delas. Fizemos campanha de arrecadação de alimentos por aqui com a combi saímos pelas ruas.

O Senhor lembra das campanhas pelas Diretas já?
Lembro. Estive lá, em um das principais lá, acho que foi em cima ali do Viadulto do Chá. Aquela estava bonita. E maior que a das Diretas foi quando o Lula foi candidato, saiu uma passeata da Praça da Sé foi até a Paulista. Aquela multidão... Nunca vi coisa daquele jeito, nunca vi e acho que não vou ver mais não, ninguém vai ver. Aquela multidão de gente animada... Tinha um jornalista Português que estava em um carro de som, pegando carona, disse: ‘Eu nunca vi isso aqui no mundo. Já andei o mundo inteiro e nunca vi igual’. Realmente, era para admirar! Aquela multidão de gente, digamos, sabendo o que quer, animada. Era muito bom! Foi muito bom.

O que o senhor acha da Comissão da Verdade?
E acho que a comissão da verdade é legal, mas acho que ela tem um limite restrito. De condições de trabalho. Porque ai é correlação de forças né. Não tem aqui no Brasil um... Porque aqui, acho que foram presos aproximadamente umas 50 mil pessoas, eu ouvi falar, no Brasil. Mortes, eu acho que não passou de 5 mil. Enquanto que na Argentina foram 30 mil mortos. Então a correlação de forças, do ponto de vista da repercussão, na Argentina é mais favorável para fazer... igual está acontecendo lá, com os generais sendo presos e tudo mais. Aqui não vai acontecer isso não.

E porque o senhor acha que não vai acontecer isso no Brasil?
Por causa disso, porque lá a contundência da ditadura foi muito maior, morreu muita gente, 30 mil. Você imagina em um país não muito grande como a Argentina, 30 mil, sempre tem um parente daqui, um amigo de lá ou daqui. Aqui, você pega essa idéia, não sei quantos são, mas acho que não passa de 5 mil, em um país desse tamanho... Então não tem uma massa de pessoas ligadas a essas pessoas que morreram, capaz de mandar um general para a cadeia.

Na época o senhor foi favorável a anistia ampla, geral e irrestrita?
Sim. Essa irrestrita eu não tinha capacidade de avaliação da palavra irrestrita, não tinha.

Não ficava claro que os torturadores seriam anistiados?
Não ficava claro! De jeito nenhum!

Se o senhor soubesse, na época, teria sido contra?
Teria proposto uma emenda.
Mas mesmo que tivesse essa emenda, eles estariam soltos. Só um movimento de massas fortíssimo, como as mães de maio e outros, é capaz de mandar general para a cadeia.

E como o senhor vê o  movimento sindical hoje?
Ruim. Ruim porque tem muita corrupção, muito peleguismo, acomodamento e incompetência. Quatro elementos. E outra coisa, não pela vontade das pessoas, mas pela conjuntura política e econômica. Por exemplo, serviços terceirizados desmontou em grande parte o movimento sindical. Nossa categoria tinha três vezes a quantidade de trabalhadores que tem hoje.  A maioria é terceirizado. E isso, para o sindicato, é um prejuízo, porque você vai fazer uma greve onde tem 50 pessoas... Então, tem coisas... O movimento sindical não está bem, apesar de ter americano vindo aqui e querendo copia o sindicato...
Como eu disse, a conjuntura econômica-política no Brasil, e no mundo, no que diz respeito a terceirização, essa tal de precarização... É desfavorável para o sindicalismo. E uma mística que tinha em 1968, que vinha até da Europa, repercutia aqui... Da Espanha. Essa mística, essa coisa, ela está meio que apagada né, o partido comunista acabou praticamente, as correntes, tudo. Então isso tudo influi.



Deixa eu contar uma coisa que eu acho legal. Um dia seu estava lá no DOI-CODI, devia ser na terceira vez. Ah, uma tarde assim, um dia como hoje, nebuloso e de tristeza, meio que de sonho... E lá no DOI-CODI era assim: Tinha dez celas de um lado, aqui no meio tinha um muro, uma distancia de aproximadamente trinta metros separando uma da outra, uma de lá e uma de cá, e o muro aqui [desenha sobre a mesa]... Esse muro não era tão alto, se a gente ficasse na porta da cela assim, dava para olhar parte das outras celas de lá. E um dia deu na cabeça rapaz, naquela, digamos, meio que tristeza... comecei a cantar o Tema de Lara em inglês rapaz... (http://www.youtube.com/watch?v=YrRMQsnSvAE). Eu sabia, eu tinha estudado um pouquinho de inglês, e eu gosto do Tema de Lara e do Dr Jivago, apesar de tudo eu gosto. Comecei cantar... Dali a pouco sobre do lado de lá uma cabeça, dali a pouco outra, parecia um teatro, dali a pouco outra... Uns dez olhando para o lado de cá, quem estava cantando... Ai terminou a música, e do lado de lá ‘Canta mais, canta mais’. Eu não cantava mal também não. Foi bem legal. 

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